Frevo


Dança e música típica do carnaval de rua e salão de Recife, Pernambuco. Essencialmente rítmica, de coreografia individual e andamento rápido. Seus dançarinos, chamados passistas, se vestem com fantasias coloridas e agitam pequenos guarda-chuvas com função somente estética. Alguns pesquisadores dizem que o frevo possui elementos de várias danças como marcha, polca ou maxixe, outros pensam que ele foi influenciado pela capoeira. O frevo não é cantando, sua música só é executada por instrumentos de sopro e surdos, que formam a orquestra do frevo conhecida como Fanfarra.

Maracatu

 
Dança típica do Nordeste, principalmente de Pernambuco. Maracatu é um termo africano que significa dança ou batuque, no qual um grupo de adeptos das religiões afro-brasileiras saem fantasiados às ruas para fazer saudações aos orixás, em um cortejo carnavalesco onde reis, rainhas, princesas, índios emplumados e baianas cruzam as ruas dançando, pulando e passando de mão em mão a calunga, boneca de pano enfeitada presa num bastão. O ritmo frenético que acompanha o maracatu teve origem nas Congadas, cerimônias de escolha e coroação do rei e da rainha da "nação" negra. Ao primeiro acorde do maracatu, a rainha ergue a calunga para abençoar a "nação". Atrás vão os personagens, com chapéus imensos, evoluindo em círculos e seguindo a procissão recitando versos que evocam histórias regionais

Quadrilha / Festa Junina

O pesquisador Mário de Andrade a define como "dança de salão, aos pares, de origem francesa, e que no Brasil passou a ser dançada também ao ar livre, nas festas do mês de junho, em louvor a São João, Santo Antônio e São Pedro. Os participantes obedecem às marcas ditadas por um organizador de dança. O acompanhante tradicional das quadrilhas é a sanfona" .

A DANÇA DA QUADRILHA: A quadrilha é dançada em homenagem aos santos juninos ( Santo Antônio, São João e São Pedro ) e para agradecer as boas colheitas na roça. Tal festejo é importante pois o homem do campo é muito religioso, devoto e respeitoso a Deus. Dançar, comemorar e agradecer.Em quase todo o Brasil, a quadrilha é dançada por um número par de casais e a quantidade de participantes da dança é determinada pelo tamanho do espaço que se tem para dançar. A quadrilha é comandada por um marcador, que orienta os casais, usando palavras afrancesadas e portuguesas. Existem diversas marcações para uma quadrilha e, a cada ano, vão surgindo novos comandos, baseados nos acontecimentos nacionais e na criatividade dos grupos e marcadores.

Os comandos mais utilizados são:

BALANCÊ (balancer) - Balançar o corpo no ritmo da música, marcando o passo, sem sair do lugar.
É usado como um grito de incentivo e é repetido quase todas as vezes que termina um passo. Quando um comando é dado só para os cavalheiros, as damas permanecem no BALANCÊ. E vice-versa,

ANAVAN (en avant) - Avante, caminhar balançando os braços.

RETURNÊ (returner) - Voltar aos seus lugares.

TUR (tour) - Dar uma volta: Com a mão direita, o cavalheiro abraça a cintura da dama. Ela coloca o braço esquerdo no ombro dele e dão um giro completo para a direita.

Para acontecer a Dança é preciso seguir os seguintes Passos:


01. Forma-se uma fileira de damas e outra de cavalheiros. Uma, diante da outra, separadas por uma distância de 2,5m. Cada cavalheiro fica exatamente em frente à sua dama. Começa a música. BALANCÊ é o primeiro comando.

02. CUMPRIMENTO ÀS DAMAS OU "CAVALHEIROS CUMPRIMENTAR DAMAS"
Os cavalheiros, balançando o corpo, caminham até as damas e cada um cumprimenta a sua parceira, com mesura, quase se ajoelhando em frente a ela.

03. CUMPRIMENTO AOS CAVALHEIROS OU "DAMAS CUMPRIMENTAR CAVALHEIROS"
As damas, balançando o corpo, caminham até aos cavalheiros e cada uma cumprimenta o seu parceiro, com mesura, levantando levemente a barra da saia.

04. DAMAS E CAVALHEIROS TROCAR DE LADO

Os cavalheiros dirigem-se para o centro. As damas fazem o mesmo.
Com os braços levantados, giram pela direita e dirigem-se ao lado oposto. Os cavalheiros vão para o lugar antes ocupado pelas damas. E vice-versa,

05. PRIMEIRAS MARCAS AO CENTRO
Antes do início da quadrilha, os pares são marcados pelo no. 1 ou 2. Ao comando "Primeiras marcas ao centro , apenas os
pares de vão ao centro, cumprimentam-se, voltam, os outros fazem o "passo no lugar . Estando no centro, ao ouvir o marcador
pedir balanceio ou giro, executar com o par da fileira oposta. Ouvindo "aos seus lugares , os pares de no. 1 voltam à posição anterior. Ao comando de "Segundas marcas ao centro , os pares de no. 2 fazem o mesmo.

06. GRANDE PASSEIO
As filas giram pela direita, se emendam em um grande círculo. Cada cavalheiro dá a mão direita à sua parceira. Os casais passeiam em um grande círculo, balançando os braços soltos para baixo, no ritmo da música.

07. TROCAR DE DAMA

Cavalheiros à frente, ao lado da dama seguinte. O comando é repetido até que cada cavalheiro tenha passado por todas as damas e retornado para a sua parceira.

08. TROCAR DE CAVALHEIRO
O mesmo procedimento. Cada dama vai passar portadas os cavalheiros até ficar ao lado do seu parceiro.

09. O TÚNEL
Os casais, de mãos dados, vão andando em fila. Pára o casal da frente, levanta os braços, voltados para dentro, formando um arco. O segundo casal passa por baixo e levanta os braços em arco. O terceiro casal passa pelos dois e faz o mesmo. O procedimento se repete até que todos tenham passado pela ponte.

10. ANAVAN TUR
A doma e o cavalheiro dançam como no TUR. Após uma volta, a dama passa a dançar com o cavalheiro da frente. O comando é repetido até que cada dama tenha dançado com todos os cavalheiros e alcançado o seu parceiro.


11. CAMINHO DA ROÇA
Damas e cavalheiros formam uma só fila. Cada dama à frente do seu parceiro. Seguem na caminhada, braços livres,balançando. Fazem o BALANCË, andando sempre para a direita.


12. OLHA A COBRA
Damas e cavalheiros, que estavam andando para a direita, voltam-se e caminham em sentido contrário, evitando o perigo.
Vários comandos são usados para este passo: "Olha a chuva , "Olha a inflação , Olha o assalto , "Olha o (cita-se o nome de um político impopular na região). A fileira deve ir deslizando como uma cobra pelo chão.

13. É MENTIRA
Damas e cavalheiros voltam a caminhar para a direita. Já passou o perigo. Era alarme falso.

14. CARACOL
Damas e cavalheiros estão em uma única fileira. Ao ouvir o comando, o primeiro da fila começa a enrolar a fileira, como um caracol.

15. DESVIAR
É o palavra-chave para que o guia procure executar o caracol, ao contrário, até todos estarem em linha reta.

16. A GRANDE RODA
A fila é único agora, saindo do caracol. Forma-se uma roda que se movimenta, sempre de mãos dados, à direita e à esquerdo como for pedido. Neste passo, temos evoluções. Ouvindo "Duas rodas, damas para o centro ; as mulheres vão ao centro, dão as mãos.
Na marcação "Duas rodas, cavalheiros para dentro , acontece o inverso, As rodas obedecem ao comando,movimentando para a direita ou para esquerda. Se o pedido for "Damas à esquerda e "Cavalheiros à direita ou vice-versa, uma roda se desloca em sentido contrário à outra, seguindo o comando.

17. COROAR DAMAS
Volta-se à formação inicial das duas rodas, ficando as damos ao centro. Os cavalheiros, de mãos dados, erguem os braços sobre as cabeças das damas. Abaixam os braços, então, de mãos dados, enlaçando as damas pela cintura. Nesta posição, se deslocam para o lado que o marcador pedir.

18. COROAR CAVALHEIROS
Os cavalheiros erguem os braços e, ao abaixar, soltam as mãos. Passam a manter os braços balançando, junto ao corpo. São as damas agora, que erguem os braços, de mãos dados, sobre a cabeça dos cavalheiros. Abaixam os braços, com as mãos dados, enlaçando os cavalheiros pela cintura. Se deslocam para o lado que o marcador pedir.

19. DUAS RODAS
As damas levantam os braços, abaixando em seguida. Continuam de mãos dados, sem enlaçar os cavalheiros, mantendo a roda. A roda dos cavalheiros é também mantida. São novamente duas rodas, movimentando, os duos, no mesmo sentido ou não, segundo o comando. Até a contra-ordem!

20. REFORMAR A GRANDE RODA
Os cavalheiros caminham de costas, se colocando entre os damas. Todos se dão as mãos. A roda gira para a direita ou para a esquerda, segundo o comando.

21. DESPEDIDA
De um ponto escolhido da roda os pares se formam novamente, Em fila, saem no GALOPE, acenando para o público. A quadrilha está terminada. Nas Festas Juninas Mineiras, Paranaenses e Paulistas, após o encerramento da quadrilha, os músicos continuam tocando e o espaço é liberado para os casais que queiram dançar.

 

As Cavalhadas

 

 

As cavalhadas são grandes encenações montadas, que reelaboram os relatos das lutas de Carlos Magno e os Pares de França contra os Mouros.

A rivalidade entre Mouros e Cristãos se estrutura simbolicamente em dois campos que se opõem, nas investidas que cada grupo faz ao campo adversário e na oposição das cores: azul para os Cristãos e vermelho a dos Mouros.O conflito é acirrado, com mortes, raptos, prisões, embaixadas e resgates.

Os cavaleiros (12 representando Mouros e 12 representando Cristãos) sempre muito hábeis nas manobras com seus animais, esforçam-se em campo para dar conta do enredo dramático através de carreiras e evoluções, em duplas ou grupais, de manejos de espadas, lanças e tiros de festim, e com a participação de coadjuvantes mascarados, sempre em números variáveis. A luta termina com a vitória dos Cristãos e a conversão dos Mouros.


Há ainda uma outra modalidade de Cavalhada, registrada no Brasil já no século XVI, sem enredos dramáticos, e que se estrutura numa série variável de jogos montados: das argolinhas, das canas (lanças), as alcancias, ...

São muitas as notícias que dão conta desses jogos eqüestres por todo o Brasil no transcurso do século XIX, o que sugere gosto especial que os brasileiros nutriam pelo divertimento. E ainda nutrem.

Ladrões de Galinha

 

Ladrões de galinha

O costume de roubar aves domésticas em quintais alheios foi uma prática muito comum no Brasil, no início do século passado. Não era delito, mas uma farra. No fim da Quaresma, na madrugada da Sexta-feira da Paixão ou do Sábado de Aleluia, colonos e fazendeiros se reuniam para a brincadeira, invadindo sítios, fazendas e quintais e subtraindo os galináceos que fariam as delícias do banquete do dia seguinte. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, o povo achava que a morte de Cristo eliminava momentaneamente todos os direitos de autoridade e propriedade, o que justificava as invasões. De qualquer forma, estas aconteciam apenas uma vez no ano e não davam grandes prejuízos, além de fazer reviver uma antiga tradição cultural que unia pessoas de classes e interesses diversos, isto é, os que possuíam galinhas e os que não as tinham.

Em Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo.

ORIGEM DOS NOMES DOS ESTADOS DO BRASIL

 

Acre: vem de áquiri, touca de penas usada pelos índios munducurus
Alagoas: o nome é derivado dos numerosos lagos e rios que caracterizam o litoral alagoano.
Amazonas: nome de mulheres guerreiras que teriam sido vistas pelo espanhol Orellana ao desbravar o rio. Para Lokotsch, vem de amasuru, que significa águias retumbantes.
Bahia: o nome foi dado pelos descobridores em função de sua grande enseada.
Ceará: vem de siará, canto da jandaia, uma espécie de papagaio.
Espírito Santo: denominação dada pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho que ali desembarcou em 1535, num domingo dedicado ao Espírito Santo
Goiás: do tupi, gwa ya, nome dos índios guaiás, gente semelhante, igual.
Maranhão: Do tupi, mba’ra, mar, e nã, corrente, rio que semelha o mar, primeiro nome dado ao rio Amazonas.
Mato Grosso: o nome designa uma região com margens cobertas de espessas florestas, segundo antigos documentos.
Minas Gerais: o nome deve-se às muitas minas de ouro espalhadas por quase todo o estado.
Pará: do tupi, pa’ra, que significa mar, designação do braço direito do Amazonas, engrossado pelas águas do Tocantins.
Paraíba: do tupi, pa’ra, rio, e a’iba, ruim, impraticável.
Paraná: do guarani pa’ra, mar, e nã, semelhante, rio grande, semelhante ao mar.
Pernambuco: do tupi, para’nã, rio caudaloso, e pu’ka, gerúndio de pug., rebentar, estourar. Relativo ao furo ou entrada formado pela junção dos rios Beberibe e Capibaribe.
Piauí: do tupi, pi’au, piau, nome genérico de vários peixes nordestinos. Piauí é o rio dos piaus.
Rio de Janeiro: o nome deve-se a um equívoco: Martim Afonso de Souza descobriu a enseada a 1º de janeiro de 1532 e a confundiu com um grande rio.
  derivado do rio Potengi, em oposição a algum rio pequeno, próximo, ou ao estado do Sul.
Rio Grande do Sul: vem do canal que liga a lagoa dos Patos ao oceano.
Rondônia: o nome do estado é uma homenagem ao marechal Rondon.
Santa Catarina: nome dado por Francisco Dias Velho a uma igreja construída no local sob a invocação daquela santa.
São Paulo: denominação da igreja construída ali, pelos jesuítas, em 1554 e inaugurada a 25 de janeiro, dia da conversão do santo.
Sergipe: do tupi, si’ri ü pe, no rio dos siris, primitivo nome do rio junto à barra da capitania.
Tocantins: nome de tribo indígena que habitou as margens do rio. É palavra tupi que significa bico de tucano.

Coco

 

Dança típica de Alagoas, de origem africana, que se espalhou por todo o Nordeste recebendo nomes e formas de coreografias diferentes. A dança é cantada e acompanhada pela batida dos pés ou pela vibração do patear dos cavalos. O mestre ou o tocador de coco entoa as cantigas cujo refrão é respondido pelos cantadores

FESTA NO CÉU - Folclore Brasileiro

 

 

 

 

 

 

 Mãe dos Bichos, com surpresa geral da fauna, apareceu enfim corporificada na floresta. Até então ninguém a vira.

 

Ouviam-lhe apenas o canto e a fala. Mostrara-se linda e majestosa. Carregava o aspecto augusto de uma deusa e lembrava, no feitio, o ar soberano da ave do paraíso, se bem que as cores fossem outras. Alva, caudas em plumas frisadas, quando esta se arredondava num leque de arminho e ouro, dir-se-ia uma auréola que a envolvesse. Na cabeça alteava-se-lhe bizarra coroa de pérolas negras. Tinha os pés verdes e o bico azul. Correspondia mesmo à divindade desencantada. Verdadeira jóia da natureza. Garjeou primeiro uma ária estonteante e falou depois. Trazia, declarou a visão, uma incumbência da corte celeste, que a encarregava de convidar seus filhos para uma grande festa no Céu.

 

A clareira da selva em que a matriarca se manifestava regorgitava de animais. Amontoavam-se quadrúpedes, ofídios, sáurios, aves, caracóis, insetos, quadrúmanos. O formoso pássaro, glória de Ornis amazônica, explicou, em linhas gerais, o que seria preciso para corresponder a tão alta distinção do Onipotente, pois a festa em vista, consistia em lhes ser mostrado um aparelho inconcebível e que se inauguraria na presença rústica de seus filhos: o rádio sideral, que ligava os mundos pelo infinito a fora.

 

Para que a embaixada terrena fosse brilhante, continuou a Bela Aparecida, tornava-se necessário organizar várias comissões. Uma, central, presidida pelo jabuti e composta da jararaca, da preguiça, da garça, do macaco, do tatu, da minhoca, da aranha, da ponhamesa, e outras menores adstritas à grande. Cada ser alado, pássaro, inseto ou peixe, obrigar-se-ia a conduzir para a Mansão Etérea, um animal sem asas. Os excursionistas deviam levar ainda, escolhendo os menores músicos da mata, duas orquestras. Nas vésperas da festa, declarou, volveria afim de examinar os trabalhos. Ruflou as asas harmoniosamente e sumiu-se no espaço.

 

Foi uma chega e vira da nossa morte na fauna. Constituíram-se mais dois grupos dirigentes e destinados a concatenear a família dos assobiadores, dos cantadores, dos batedores, dos roncadores, dos trinadores, dos tocadores, dos zunidores, dos gritadores, dos estriduladores, dos sopradores, dos zabumbadores, dos ventriloquadores, dos flauteadores. Do primeiro ficou à testa o maestro carachué, arrebanhando para o seu lado o japiim, o bicudo, a patativa, o coleiro, o canário-da-terra, a maria-já-é-dia, o currupião, o tém-tém, o bem-te-vi, o curió, o urutaí, a matinta-pereira, a saracura. O segundo grupo foi encabeçado pelo maestro irapurú, e se concretizava nos seguintes músicos: jacamim, juriti, aracuã, inhambu, macucáua, marrecão, gaivota, acauã, cutipurui, rasga-mortalha, saí, murucututu, araponga, ferreirinho, cigarra, cametáu, grilo, pomba, arara, papagaio, rola e periquito.

 

A lista do jabuti, aclamado chefe geral da embaixada, rezava assim a respeito dos foliões: a borboleta levaria a anta; a ponhamesa levaria o jacaré, o peixe-voador levaria a tartaruga; o gavião levaria a aranha; o bem-te-vi levaria a cobra-grande; a saracura levaria a piraíba; a cigarra levaria o uruá; o mutum levaria a centopéia; o cujubim levaria o boto; o mergulhão levaria o pirarucu; a rola levaria o peixe-boi; o papagaio levaria o caranguejo; a arara levaria o bacu; o periquito levaria o tamanduá-bandeira; o tucano levaria o poraquê; o pica-pau levaria a queixada; o quiriru levaria a preguiça; a matinta-pereira levaria o embuá; o beija-flor levaria o candiru; o urutaí levaria o matrinchão; o japim levaria o quati; a andorinha levaria o sapo cururu; a pipira levaria a paca; o tém-tém levaria a jibóia; o irapuru levaria o mussuã; a piaçoca levaria o camaleão; a graúna levaria o tambaqui; a pomba levaria a onça; a iraúna levaria a pescada; o carachué levaria o tracajá; o murucututu levaria o jandiá; o urubu levaria o jabuti; o gavião real levaria o tatu; o transporte dos outros animais anotara-se em listas secundárias.

 

Nas vésperas da partida, a Mãe dos Bichos veio examinar o que se havia feito, achando tudo em ordem. No dia aprazado alçaram-se, numa aleluia de asas, em busca do Empíreo. A terra ficou sobre um velário de plumas e penas. Voaram, voaram, voaram. Mas o céu era longe. Afinal chegaram a mansão do Sonho, azul como anil. São Pedro, sorridente e afável, abriu a porta de bronze e a bicharada entrou meio desconfiada olhando para os lados, espantada com o luxo. Autênticos matutos, tropeçavam nos tapetes, davam de encontro nos espelhos, abalroavam os móveis, apalpavam os panos de Arraz, os vitrais, os mármores, as cortinas.

 

Os anjos, que vigiavam a roceirada, só faltava rebentar de riso. Oh, bichos burros! Verdadeira pândega. Ao passarem na sala das onze mil Virgens, o macaco buliu na corda duma harpa. Ouviu-se um som. Praquê? Assustaram-se de tal forma os animais que houve pânico. O corre-corre não foi desta vida. Pulavam, saltavam, voavam, voavam. O arcanjo São Gabriel, que ia passando, riu-se tanto que deixou cair a espada de fogo.

 

Oh, canalha frouxa! Arriscou. Nunca tinha visto medrosos deste calibre. São valentes apenas no prato.

 

E meteu o cinturão numa cotia que já estava roendo a quilha da barca de São Pedro.

 

Daí passaram os turistas à sala dos santos. Mais de mil representantes do Flos Sanctorum, em trabalho fremente, recebiam e transmitiam ordens do Todo Poderoso, invísivel aos visitantes. Súbito lampejo anúnciou o Sol. De acordo com o regularmento celeste, ia buscar ordens para as vinte e quatro horas futuras. Chegou depois a Lua com o mesmo desígnio. As Estrelas - só de mil em mil anos. Os santos, numa verdadeira lufa-lufa, atendiam e derteminavam o programa solar; luz forte no Maranhão, luz fraca no Rio Grande do Sul, meia luz em Minas, suma-se nos pólos. Momentos depois aportou o vento com o mesmo objetivo, solicitar ordens. As respostas dos celículas surgiam em cima da bucha: "assobie apenas na Amazônia; devaste o golfo do México; vire ciclone na América do Norte e furacão no centro do Atlântico; torne-se tempestade no Báltico e tufão no Pacífico".

 

Qualquer turma de sindicância para regiões distantes, em que se gastavam anos e anos de viagem, embarcava em cometa para a travessia do infinito. As expedições ligeiras, aos satélites do sol e da terra, faziam-se em Aerólitos num vou ali já volto. Não tardou levaram os bichos à seção de eletricidade, na qual o assunto astronômico e meteorológico mantinha-se regulado e preciso. Desse departamento emanavam ordens para a tabela diária: relâmpagos na Austália, coriscos em Fernando de Noronha, trovões na Alemanha, fogo- santelmo na Inglaterra.

 

Mas a grande novidade, aquilo em suma que constituía a festa no Céu, e para qual os animais teriam sido convidados, era o rádio sideral, descoberta de Santa Bárbara e São Jerônimo, por meio desse aparelho fantástico sabia-se do que ocorria nos astros, nas estrelas, nos planetas. De repente lá vinha: terremotos em Castor e Pólux, quatro vulcões na Ursa Maior; incêndio na Papa-Ceia; inundação em Saturno. As notícias de tais sinistros e catástrofes eram respondidas com urgentes providências. Enviaram-se turma de engenheiros, de maquinistas, de médicos, de enfermeiros e ambulâncias destinadas a concertos, a restaurações, a socorros aos flagelados.

 

Os bichos estavam apalermados. Mas sem saber como, pois ali não havia bebida, São Pedro notou que a maioria dos excursionistas se achava embriagada, num porre tremendo. O apóstolo aí zangou-se e mandou encostar a taca nos viciados. Foi lapada de todo tamanho. Além disso, o assoalho do Céu estava em petição de miséria: cuspido, escarrado, vomitado, sujo de pontas de cigarros, fósforos, cascas de frutas. Mais zangado ficou o santo. Ordenou de novo uma boa tunda naquela corja. Houve o respectivo salve-se quem puder. A bicharada abriu o pano. Uns levavam os instrumentos dos outros. Animais que tinham vindo com este iam com aquele. O urubu, tonto, tonto, deixou cair o jabuti que rebentou ao cair em terra. Quem lhe remendou o casco foi a Mãe dos Bichos. Quando os animais falam nessa festa é para recordar a pancadaria que levaram no Céu por serem porcos e cachaceiros.

 

(MORAIS, Raimundo. Histórias Silvestres do Tempo em que Animais e Vegetais Falavam na Amazônia)

Verdades sobre o Dia da Mentira

 

Marion Koogler McNay Art Museum, San Antonio, TX, USA

Eva, não ouça o mentiroso. Paul Gauguin, 1889.
 

Dentre as várias versões de por que 1º de abril é considerado o Dia da Mentira, uma das mais aceitas é a francesa. Entre os francos, o ano-novo era comemorado nas festas da primavera, entre 25 de março e 1º de abril. Quando, em 1564, o rei francês Carlos IX adotou o calendário gregoriano e passou a iniciar o ano-novo em 1º de janeiro, alguns franceses conservadores resistiram, insistindo em comemorar a data em 1º de abril. A maioria do povo, por brincadeira, passou nessa data a gozar esses conservadores, convidando-os para festas inexistentes ou mandando-lhes presentes estranhos e falsos. Daí o seu epíteto de Dia da Mentira. Atualmente, na França e em muitos países, como o Brasil, é comum as pessoas nesse dia contar mentiras e vantagens "cabeludas" ou fazer falsos convites, tudo em nome do dia em que é permitido faltar com a verdade.

Bibliografia utilizada: Guia dos curiosos, de Marcelo Duarte. São Paulo, Cia. das Letras, 1996.

 

Folclore dos animais

 

 

 

 

 

 

 

A presença dos animais no folclore é de várias espécies e formas. Sem falar nas fábulas, de que são protagonistas, nas anedotas — e entre nós as mais divulgadas e conhecidas são as de papagaio, do burro, do macaco, a maioria talvez de intenções fesceninas e convém registá-las — os animais são vistos pelo povo  uns como bons e protetores, outros, como maus e maléficos, dizendo-se mesmo que aqueles são obra de Deus e estes invenção do demônio. A pomba, por exemplo, é símbolo do Espírito Santo e sua revoada é sinal de alegria; o carneiro representa o Cordeiro Imaculado e é tido como sagrado. A coruja, o urutau e a borboleta preta são agoureiros e denunciam morte ou desgraça e há os que trazem azar, como gato preto que passa à nossa frente. O diabo se encarna na serpente, no bode e no cachorro; certos animais abrigam almas penadas, em suma, o número de superstições com os bichos é muito grande, sendo que alguns, pelas suas propriedades e ligações com o mal, são imolados em cultos fetichistas, como os galos. Inúmeras simpatias são feitas com partes de animais, que servem de talismã, como pé de coelho e de veado, caveira de boi, para a proteção dos campos, ossinho do uirapuru, morto quando esteja cantando e preparado por feiticeiro, é valioso para o amor e propicia bons negócios.

 

Essa meia dúzia de exemplos a esmo serve para lhe mostrar a importância folclórica dos animais e orientar a sua coleta. Dificilmente lhe pedirão a faça em torno de animais, porém, se assim acontecer, dentro das instruções recebidas, procure informantes que lidem com eles, os caçadores são muito indicados, os mateiros e os homens do campo, embora mesmo na cidade se saiba de muita coisa. Em qualquer capítulo do folclore você encontrará a presença de animais.

 

Muito interessante é conhecer a explicação da forma do corpo e costumes animais. Porque o casco do cágado é em pedacinhos? Por que o gato lava o focinho? Por que o cão cheira o traseiro de outro cão? e as superstições, lendas e crendices relativas à cópula e ao nascimento de animais, particularmente dos domésticos.

 

Registe a denominação que o povo dá aos animais domésticos: porco reprodutor é cachaço ou pastor; caso contrário, se chama mesmo de capado; touro é reprodutor, castrado é boi; os leitõezinhos são os bacorinhos, jumento é jegue, galinha é penosa, animal imperfeito, mal castrado, é roncolho etc.

 

Convém fazer uma lista dos animais conhecidos, na sua região, dos mais familiares, dos passarinhos, bem assim daqueles que mais excitem a imaginação popular. Porque há o animal de casa, gato, cachorro, galináceos etc., há os de trabalho: boi, burro, jumento, cabra e por aí a fora, há os selvagens, como o macaco, o tapir, a preguiça e já agora variam conforme as regiões; os ferozes ou perigosos, a exemplo da onça, da queixada, do tamanduá; os de caça, coelho, cotia, paca, sem falar nas aves e pássaros. Não se trata de organizar uma relação dos animais da área de sua coleta, mas de referir os mais conhecidos, ou melhor, os que interferem na vida da coletividade. Não esqueça também os irreais e fabulosos, os bichos encantados e outros figurantes de mitos e lendas. Porque o essencial é nos dar a função folclórica dos animais, as superstições a que estão ligados, os benefícios de que são portadores, a magia que os envolve. Não adianta muito saber se há galos ou gatos, claro que os há em toda parte, mas se se acredita no azar dos gatos pretos e se quando o galo canta fora da hora é moça que fugiu de casa. Esse aspecto é que deve ser a sua preocupação principal, bem assim coletar, além das fábulas, histórias e anedotas em que figuram animais.

 

Verificará que o povo tem um conceito firme sobre os bichos, inteligentes são o jabuti, o papagaio, o coelho, o veado, o bode e paradoxalmente o burro. O animal forte, brutal e arrogante, vencido sempre pela astúcia e sagacidade dos inteligentes, é a onça. O sapo é muito esperto. O macaco, velhaco. E assim por diante.

 

Os animais no convívio humano

 

A gratidão do homem aos animais é outro capítulo a ser verificado. Cito, como exemplo, o famoso banquete dos cachorros, que é feito no Amazonas, Maranhão, Ceará e Piauí. Trata-se de pagar uma promessa a São Roque e a São Lázaro, santos amigos dos cães. Consiste num banquete ofertado aos cachorros, com os quais a pessoa que cumpre o voto deve comer. Depois que a cachorrada se farta, os assistentes caem na dança.

 

O homem também faz o animal participar de suas manifestações de alegria, de tristeza e mesmo religiosa, quer enfeitando com fitas vermelhas os chifres dos bois que puxam o carro que distribui carne na festa do Divino, quer soltando pombinhas nos dias de Santa Inês, ou ainda oferecendo galo a São Roque, na sua comemoração. Além do sacrifício de animais nos ritos fetichistas.

 

Seria impossível indicar a você o mundo do folclore animal. É preciso ter em mira que o animal está ligado indissoluvelmente à vida do povo e do primitivo, de sorte que em quase todos os aspectos do folclore você entrará em contato com os bichos e, assim, aproveite sempre para anotar o que lhes diz respeito. Os exemplos citados são meras referências destinadas a alertar sua atenção.

 

Verifique ainda as relações sexuais entre homens e animais, não pelo fato em si, ainda que importe para aferir do comportamento da coletividade, mas, sobretudo, pelos males que acreditam acarretar aos que as praticam. Registe ainda o anedotário a respeito. Há histórias de mulheres que concebem com animais? Neste caso, como são os filhos? No Amazonas corre lendas de moças defloradas por botos, explicação que serve para encobrir o fato real.

 

Sobre as vozes de animais e a sua interpretação corre muita coisa interessante.

 

Contam que quando Jesus nasceu, o galo anunciou: Jesus Cristo nasceu! Perguntou o boi, em comprido mugido: onde? E respondeu alegremente o carneiro: em Bélem, em Bélem. Mas o patão ajuntou depressa: não conte, não conte. E o peru: mate logo, logo, logo, logo. Daí, este ficou amaldiçoado e morre na véspera do Natal.

 

As crianças chamam muito os animais pelas suas vozes: o cachorro é au-au, o gato, miau, o pinto, piu-piu, o passarinho, piu-piu etc. Aliás, muitas aves têm os nomes dos seus cantos: rolinha: fogo-apagou; sabiá: que tem vovó?, o saci, o quero-quero gaúcho e assim por diante.

 

A importância das partes do corpo dos animais e de seus produtos, convém verificar, sendo que, quanto ao leite, há grande folclore, desde o ato de ordenhar até o fabrico dos produtos laticínios. Como se faz o desmame dos bezerros? Passam estrume nas tetas? Como enganam as vacas quando os bezerros morrem ou lhes são tirados? Costumam colocar a cria dentro de um saco? Cobrir com o couro do bezerro morto o que lhe toma o lugar? O leite, sobretudo da jumenta, tem muitas aplicações na medicina popular, que convém notar.

 

Veterinária folclórica

 

Existe uma veterinária folclórica, com suas receitas, suas rezas, sua profilaxia. Bezerro com dor de barriga deve cheirar alho queimado com três brasas e quando está triste se lhe dá um corte na orelha; para matar berne, sarro de pito; para curar dor de barriga de boi, amarrar uma palha de milho na vassoura do rabo. E as receitas mágicas, que proíbem matar galinha doente, salvo de chocar, quando pode ser mora, desde que se reserve um dos seus frangos para as almas. E preventivas, cuspir em ovos de passarinho para a cobra não comê-los.

 

Deve igualmente ser registrada a grande quantidade de orações para proteger contra animais ferozes ou daninhos, por exemplo, contra cobras, não só para defender o homem, como também a criação, animais caseiros e rebanhos. E quais os santos protetores, invocados para esse fim, como São Bento, São Lázaro e São Roque?

 

Metamorfose

 

Quanto à metamorfose de homens em animais, antes de tudo, temos o caso do lobisomem. Como você sabe é comum no interior do Brasil, acreditando-se (a crença, aliás, aparece em vários países do mundo) que certos indivíduos, por essa ou aquela razão, nas noites de sexta-feira, se transformam em cachorro de grandes orelhas e andam pelos caminhos, só desencantando na madrugada seguinte ou quando chupam o sangue de sete pessoas, preferencialmente de crianças, sina que são obrigados a cumprir por sete anos. Dizem que ficam nos galinheiros se espojando no estrume, que se alimentam de dejeções de crianças, motivo pelo qual têm entre os dentes fiapos de cueiros, e são perseguidos pelos cães que muito os maltratam. Muita gente você encontrará, como tenho encontrado, que não só já viu o lobisomem mas ainda conhece pessoas que nele transmudam. Dizem, por exemplo, que numa família com sete filhos, se o último não for afilhado do primeiro, vira lobisomem. Há também a crença de mula-sem-cabeça, ou burrinha-de-padre, ou cavalacanga, ou curacanga, animal fantástico, forma que tomam as mulheres que tiveram relações com sacerdotes ou com compadres; de porca com sete leitõezinhos, representam as mães que mataram seus filhos antes que eles nascessem. E nos altos do Xingu e do seu afluente Iriri, aparece um monstro, capelobo, talvez um velho índio, virado bicho, grande macaco, que anda de pé, com cabelo tão espesso e comprido que não há bala que o possa varar e desprende uma catinga que, a doze metros, mata qualquer cristão. É horrendo e cruel, cada qual fala dele de uma maneira, mas vive no pavor dos índios da região.

 

A bruxa também resulta de uma metamorfose de gente, com certos pontos de contato com o lobisomem, pois, se transforma em bruxa, moça de casa de muitas jovem e uma delas não é comadre da mãe. Também brinca com crianças no borralho, chupa-lhes o sangue. Na noite de sexta-feira sai pelos ares montada numa vara ou vassoura. Vira bicho ou ave, mas depois desencanta e volta a ser gente. De noite entra nos armazéns para beber vinho. Seus poderes, contudo, são inferiores aos das feiticeiras.

 

São esses casos muito conhecidos, mas procure saber se há outros na região da sua coleta. Tudo isso vai referido em síntese, apure como as coisas se passam, e as descrições não são difíceis. Saber também se o lobisomem passa de uma localidade para outra, ou se só se manifesta naquela em que reside.

 

Veja se conhecem também caso de metamorfose de animais entre si. Dizem que todo bicho d'água se transforma em outro, beija-flor vira borboleta, rato vira morcego etc. Mas já vi contestado o caso de beija-flor, porque, alegavam, bicho que põe ovo não vira nada.

 

Superstições e histórias

 

Tome nota das superstições a respeito dos animais domésticos e das aves de criação, por exemplo, galinha que canta de galo é agouro, se um galo preto cantar três vezes a assombração não pode mais andar, matar joão-de-barro dá dor de barriga, ou as crendices, a exemplo de que peixe que tem Nossa Senhora nas escamas é abençoado, da mesma forma o gambá, porque ofereceu leite ao menino Jesus, enquanto o cabrito é renegado porque o negou, cascudo leva para os outros a bronquite ou a lepra de quem cuspiu em sua boca, ver aranha de noite é sinal de contrariedade, de tarde traz notícias más e de manhã, boas; gafanhoto na sala é visita, no quarto é doença, na cozinha, fartura. E historinhas assim: Quando o menino Jesus fugiu de Herodes a rolinha cobria seus passos e o tico-tico vinha atrás e os descobria; por isso a rolinha é abençoada e o tico-tico amaldiçoado; o urubu também é amaldiçoado, porque quando Noé abriu a arca e viu que a chuva havia passado, mandou um corvo branco buscar um raminho no bico, o tempo passava e ele não voltava, então Nosso Senhor mandou um anjo verificar o que havia acontecido e soube que o corvo encontrara um defunto e se banqueteava, dessa data em diante, Nosso Senhor o deixou preto e lhe deu como sina se alimentar apenas de coisas estragadas.

 

Há certas práticas relacionadas com animais, como colocar o sapato de sola para cima para fazer cessar os uivos de um cachorro. Observe-as. Registe também as conjuras e os meios de evitar os malefícios.

 

Animais domésticos

 

Neste capítulo vamos cuidar de saber os processos populares relativos à criação, quer de animais domésticos, quer de gado. Os fatores econômicos só interessam acidentalmente e as atividades sociais pertinentes no que dizem ao folclore. Por exemplo, se os rebanhos de gado vacum ou lanígero têm chifres ou se os cortam, pode interessar ou não. Se os animais são descarnados por motivos técnicos, pouco se nos dá saber a razão, se porém o fazem por motivos supersticiosos ou porque acreditam que assim praticando resultam determinadas vantagens, então é crendice e deve mencionar. Da mesma forma, se praticam deformações nos chifres, se o fazem em geral ou apenas em certos animais e qual a razão? O mesmo com a castração, se é feita com algum rito e o destino dado aos órgãos amputados. Como aproveitam os chifres depois de destacados? Qual o modo de ordenhar e que serviços prestam os animais, afora os usuais? Alimento, transporte, utilização em mecanismos primitivos, na lavoura etc. Como curtem o couro? Como tosquiam as ovelhas e como fazem o aproveitamento da lã? Há processos para propiciar a criação, proteger os animais, inclusive as rezas? Como os defendem dos ataques dos demais? Usam leite de égua, ovelha, cabra?

 

Quais os animais domésticos? Cachorros, e com que utilidade? Caça, guarda? Ou têm apenas por ter? Possuem gatos? Dão-lhes alimentos ou deixam que procurem? Quais as lendas e histórias sobre a origem e a vida desses e de outros bichos familiares? Possuem apicultura? Como explicam a vida das abelhas? Têm processos e técnicas para colher o mel e a cera? Que emprego lhes dão?

 

Possuem galináceo e de que espécie? Quais as histórias de galinheiro, crenças, anedotas, ditos etc.? Em outra parte anotamos a crença de que o lobisomem se espoja no estrume de galinha, verifique se existe; quais as crendices e práticas relativas às galinhas? Quem cria galinha não casa? Mulher grávida que se aproxima de galinha choca, aborta? Há explicações ligando o canto do galo ao nascer do dia? E o que se diz relacionado aos ovos, sobretudo no tocante à lua, para a postura? Costumam desenhar nos ovos uma cruz de carvão, para evitar que estrondem, principalmente no mês de trovoadas?

 

Como têm os galináceos, soltos ou em galinheiros? Para uso da família ou para venda? E pombos? Acreditam que dá azar criar pombos? Têm papagaios faladores? Que dizem eles? Conhecem as anedotas de papagaio? Registe-as. Como os alimentam? Têm passarinhos engaiolados? Como os apanham? Alçapão? Visgo? Cite as espécies de armadilha com suas denominações e processos. Como defendem as galinhas dos gambás? Usam no galinheiro ou onde os galináceos se encontram, talismãs protetores? Costumam pedir a proteção de São Roque para as suas aves oferecendo-lhe um galo? Como alimentam os galináceos, jogam milho em cruz? Por que? Como tratam as ninhadas? Que empregam para conservá-las e como curam doenças e pragas? Que remédios usam, não só naturais como sobrenaturais? Têm galos de briga? Cuidam do seu preparo? Os galos lutam em rinha ou em terreiro? Fazem apostas? Registe o vocabulário dos galistas. Fazem brigas de canários? Indique onde e explique como se realizam, bem como superstições e histórias em derredor, sobretudo a de heróis famosos de tais lutas.

 

Há ainda certas formas de educar os animais domésticos, como esfregar o focinho do cachorro nas dejeções que deixou dentro de casa para evitar que torne a fazer, coisa que  povo pratica sem conhecer o que seja reflexo condicionado? Explicam o movimento da cauda como uma linguagem peculiar? Que processos usam para acostumar o cachorro ao seu novo dono? Muito comum é deixar o animal sem comida e dar-lhe depois um pedaço de angu passado no sovaco do proprietário, para que o conheça pelo cheiro.

 

O carneiro é animal de Deus, representa Jesus, São João Batista o traz nas costas, é o cordeiro pascoal. Animal dócil e útil, serve de alimento e dá a lã. Morre calado. Ruim mesmo é o carneiro preto, que bota o rebanho a perder. O carneiro é figura velha no folclore, desde a história do tosão de ouro, que os argonautas conquistaram. Entre nós, existe uma lenda do carneiro de ouro, no Piauí, que aparece com uma estrela de brilhantes na testa e acreditam que indica um sítio em que há grandes riquezas. Os que tentam chegar até lá não dão com elas, porque o carneiro desaparece. Numa variante, o carneiro surge num lugar onde, uma noite, bandidos mataram um frade, que trazia esmolas, inclusive ouro para sua igreja. Mas, arrependidos, enterraram ali mesmo a vítima e as esmolas. O carneiro encantado simboliza o monge, a estrela de brilhantes, a riqueza sepulta. Nosso folclore do carneiro não é grande, por isso procure ver se o povo da sua região sabe mais coisas a respeito. O coelho é símbolo da Páscoa; pela sua fecundidade, representa o poder da Igreja em multiplicar os fiéis.

 

Bode e cabra são animais com ligações com o demônio, e no primeiro muitas vezes ele se encarna, e quando se vê a marca de pé de bode não é bom, não. Muitas vezes o diabo estoura dentro de um bode. A oração da cabra-preta é demoníaca, embora endereçada a Santa Justina.

 

Por outro lado, porém, a cabra é chamada de cabra-cabriola. Por fim, bode e cabra são denominações dadas aos mulatos, donde se fez cabrocha. Aliás, nessa acepção, o folclore é muito grande, com ditos, anedotas, sátiras, em prosa e verso. Os termos eram depreciativos, mas hoje a cabrocha, pelo menos nos sambas urbanos, é muito louvada:

 

Cabrocha bonita

Nascida na roça

Tem aroma

Quando vem da igreja

Lá da freguesia

Traz no olhar, feitiçaria...

 

A expressão cabra vai tomando também um sentido indefinido, sem alusão à cor, como cabra afamado, cabra valente, cabra safado. Bode é ainda, na linguagem popular, sinônimo de sensualidade, devassidão.

 

Outro animal que não podemos deixar de mencionar é o porco, cuja idéia se associa à da sujeira, daí porcaria. Nesse sentido há muitos ditados e histórias. Do porco do mato, ou caititu, se diz que é a montaria da caipora, quando não anda escoltada por uma vara deles. A história da porca dos sete leitões tem várias explicações. Dizem que nela se metamorfoseia mulher que teve relações com padres, a mesma coisa da mula-sem-cabeça, ou e a alma das mulheres que provocaram abortos ou mataram filhos recém-nascidos, cada leitão corresponde a uma das vítimas; ou é o próprio diabo. Em certos lugares acreditam que só persegue homem casado que volta para casa fora de hora.

 

Cobras e serpentes

 

A serpente é o primeiro animal que aparece na terra, tentando Eva no paraíso, simbolizando a maldade, perfídia, inteligência. A isso alia a serpente o fato de ser peçonhenta, com picada mortal, e ardilosa com o bote inesperado e fatal. Portanto, dominou a imaginação popular por todas as formas e é um dos animais de maior e mais rico folclore. Mitologia, superstições, sabedoria, origem de gente, medicina, magia, crendices, em tudo a encontramos. E, num país como o nosso, coberto de matos e florestas, com um sem número de espécies de cobras, tornando o seu perigo constante ao homem do interior que, antes dos soros antiofídicos, era sacrificado violentamente pelas mordidas de cobra, é natural que a mentalidade primitiva tenha, na serpente, uma infatigável e interminável motivação.

 

Falamos nos mitos das cobras fabulosas, nas histórias de cobras, na medicina para curar as suas mordidas, seja material ou mágica, nas suas propriedades terapêuticas, pedras das serpentes, banha de cascavel, nas superstições e tabus, em suma em quanto se refere a essa espécie animal essencialmente folclórica. Em qualquer coleta que deva fazer no interior, verifique a persistência da cobra, pela vigilância, pelo temor que inspira e pelo simbolismo que a cerca.

 

A cobra é um desses assuntos que não se pode encerrar neste ou naquele setor da cultura popular. Está em toda parte, das mais audaciosas abstrações mitológicas ao artesanato mais rudimentar, apresenta-se, como na realidade, de forma sempre inesperada e sutil. Por isso, em qualquer setor que colete, particularmente nos referentes à vida do homem do interior, veja o papel que a cobra representa e preste atenção para as várias espécies, cascavel, sucuri, jibóia etc., mas registre sempre os nomes e o que de específico ocorre em relação a cada uma delas.

 

As superstições e tabus em torno de cobras são os mais numerosos. Por exemplo, quando uma mulher menstruada pula por cima de uma cobra ou por ela é mordida, é a cobra que morre. Uma pessoa mordida por cobra deve ficar isolada, não pode ver ninguém, senão marido e mulher respectivamente, se forem casados, e companheiros e companheiras, se acompanheirados, mas no caso da mulher, ela só pode ser vista se não estiver menstruada. Para imobilizar uma cobra, basta dar um nó na fralda da camisa. Naturalmente, quando cito exemplos, são colhidos um pontos diferentes do país, o que não quer dizer que sejam conhecidos em toda parte. Os que acabo de citar, ouvi, como correntes, mas não significa que o sejam em todos os lugares. Coletas, como a de que você está incumbido, destinam-se exatamente a conhecer e localizar os fatos folclóricos, ainda sabidos muito a esmo.

 

O boi

 

No ciclo do boi, como já disse, o folclore é enorme no Brasil, como aliás, em toda parte, mas, se for de criação de gado a zona de coleta, convém entrevistar boiadeiros, ouvir-lhes as descrições das longas caminhadas, registar se os aboios são feitos apenas num canto sobre sílabas ou também com palavras ou versos. E como são as vaquejadas, as apartações, como pegam e domam os novilhos e os touros. Se pelo rabo ou por qualquer outro processo. Como é marcado o gado e as marcas usadas? Fazem touradas? Aliás, a enumeração de fatos neste Manual é de plano secundário, porque a esta altura você já sabe o que deve registar e mesmo porque seria impossível indicar todas as formas pelas quais se praticam as vaquejadas e as apartações. Como se dispõe o gado nas boiadas? Quais as precauções tomadas para evitar o estouro?

 

Grande importância deve ser dada à vida do vaqueiro, quer o que conduz as boiadas, quer o das fazendas. E ouvir-lhes não apenas as descrições das caminhadas, como ainda as histórias, as lendas, as assombrações, os causos e os processos que utilizam para defender o gado.

 

Que comem ou bebem? Como dormem? Verifique também as condições financeiras pelas quais trabalham. As rixas, as rivalidades, as feiras de gado, a nomenclatura que utilizam. E a indumentária, descrevendo minuciosamente a de couro, se no nordeste, e a do gaúcho, se no sul. Cite as armas que usam e os nomes pelos quais são conhecidas.

 

Há uma quantidade de cantigas, de histórias, de romances de boi e, principalmente, o auto popular de bumba-meu-boi, conhecido com os nomes de boi-bumbá, na Amazônia; de reis-de-boi, no Espírito Santo; de folia de boi, em Minas Gerais; de boizinho, em São Paulo e Rio Grande do Sul, além de muitos outros mais. Esse drama popular faz a apologia do boi, animal protetor, amigo do homem, da maior utilidade, do qual como dizemos americanos, só se perde o mugido. E as lendas, como aquela de Mato Grosso, que o boi do pantanal quando morre vira a cabeça para os lados onde nasceu. E o choro dos bois quando vão ser abatidos?

 

O cavalo

 

O cavalo é animal de estimação, não é democrata que nem boi, nem está tão ligado à vida do interior quanto este, salvo na área gaúcha, onde tem importância capital. O matuto, em muitos casos, diz que prefere o cavalo à mulher, porque esta, uma vez perdida, se pode encontrar outra com muito mais facilidade do que o cavalo.

 

Minha mulher e meu cavalo

Morreram no mesmo dia

Antes só fosse a mulher

O cavalo é que eu queria

Cavalo custa dinheiro

E a mulher não faltaria

 

O folclore do cavalo tem várias formas, a mais importante das quais talvez seja a mágica, os cavalos encantados, como o cavalo d'água do São Francisco, que persegue e afunda barcos, ou aquele da lenda gaúcha, lindo bagual, que o filho de um cacique viu e montou para fascinar a índia de seus amores, que o havia preterido por outro. Mas o animal apenas cavalgado, voou e foi cair com o cavaleiro na lagoa Carobé, que ficou chamada lagoa do Cavalo Encantado, a do cavalo misterioso da história nordestina, que vence o boi mandigueiro, depois desapareceu como por encanto e os donos não os viram, jamais tiveram roteiro.

 

E há ainda o cavalo-marinho (hipocampo), metade peixe, que é monstro marinho sobre o qual correm lendas. A sua figura e o emblema da Campanha de Defesa do Folclore. O cavalo-marinho, peixinho de rio, é vendido em mercados e feiras, com aplicações terapêuticas, devendo ser pulverizado, em ambiente escuro, misturado com água e tomado para curar asmas, tosses e bronquites. É ainda um dos comparsas do bumba-meu-boi, mas em figura de gente, o personagem central de um auto desse nome, em via de desaparecimento.

 

O cavalo aparece também nas cavalhadas e nas cavalarias, naquelas na versão eqüestre do auto dos mouros e cristãos, nestas em cortejos de cavaleiros que desfilam em homenagem a um santo, como as de São Benedito, em Guaratinguetá, São Luís do Paraitinga e Guararema, no estado de São Paulo.

 

Também muito grande é a contribuição nos provérbios: cavalo dado não se olha a cor; cavala alazão, carga no chão; pelo andar do cavalo se conhece o cavaleiro, e nos ditos, tire o cavalo da chuva; cair de cavalo magro etc.

 

Mas, onde o folclore do cavalo tem uma importância muito grande é no Rio Grande do Sul, zona de criação. Na campanha gaúcha, o cavalo é o companheiro inseparável do homem em toda a sua vida, em todas as suas ocupações. No seu populário está a cada passo, nem poderia ser de outra forma. A doma dos potros bravos, a castração, a montaria, as crendices. Até na poesia, as imagens se referem à vida campestre, "no potreiro de teus olhos", "fazer rodeio" e assim por diante. Aliás, é numerosa a poesia folclórica e popular sobre o cavalo.

 

Muitos são os nomes dados aos cavalos, conforme cor, idade, qualidade etc.

 

Diz-se um potrilho, um bagual, um pingo, um xucro, um passarinho, um pangaré, um tordilho, um baio, um alazão e assim por diante. Mas você deve enumerar essas designações, indicando o sentido que possuem. Por exemplo, potrilho, animal de menos de dois anos; bagual, animal novo e arisco; baio, de cor amarelada; passarinheiro, animal assustadiço; pingo, cavalo bom corredor etc. E também o nome dos arreios, ou aperos do cavalo que, por poderem variar, você deve também explicar, exceto quando se tratar de termos conhecidos em toda parte, como freio, rédea, cabresto, estribo.

 

Você poderá estranhar essas indicações, dizendo que não se trata de folclore. Mas são coisas que se intrometem no folclore ou, se preferir, nas quais o folclore se intromete, de sorte que necessitamos conhecer, mesmo para perceber o sentido de muitas expressões, costumes, usos, tradições, adágios e outras manifestações folclóricas. O folclore gaúcho não o interpretaremos com segurança se desconhecermos esses elementos e eles serão essenciais para planejar uma pesquisa a seu respeito. Uma coleta não se refere apenas ao fato folclórico, mas também aos fatores circunstantes onde se manifesta, vive e atua.

 

Assim, precisamos conhecer também os nomes dos petrechos da vida campestre, laços, boladeiras, rebenques e tudo mais, particularmente sela, e, por igual o dos campos, e suas construções, invernadas, piquetes, potreiros, curral, tronqueira, posteiro, palanque e, sobretudo, o galpão, com diversas finalidades, mas a que mais nos interessa é a de ser casa dos peões, e que se enche de tantos fatos folclóricos. E também referências ao capataz e ao peão das fazendas gaúchas.

 

Atenção particular se fará à sela, que já foi símbolo de status, pois quem tivesse cavalo de sela na estrebaria, pelas Ordenações do Reino de Portugal, não podia sofrer pena vil, estava isento do baraço, do pregão e dos açoites. Por isso mesmo foi sempre um objeto de luxo, sobretudo na nossa aristocracia rural. A sua feitura ganhou foros de um artesanato de importância. Há vários tipos de selas, naturalmente conforme as regiões, dos mais modestos aos mais ricos, com decorações de prata. Possui vários acessórios, dentre os quais os estribos, cujo valor depende do da sela. São de muitas formas e modelos. Mas o que nos interessa não é o aspecto dos arreios da gente rica, mas da gente do povo, em geral simplórios e pobres. Destes que você deve coletar e descrever.

 

Não se lhe pede que se informe de tudo isso, em geral, mas de tudo que, na região de sua coleta, você tiver visto ou lhe for solicitado. Só informe do que viu ou soube na área em que estiver trabalhando, sem comparações com fatos semelhantes em outros lugares, a menos que sejam do seu conhecimento pessoal, por testemunho direto, quando incluirá nas observações fora do texto enumerativo da coleta, naquelas considerações que, quando quiser fazer, deve ser à parte. A coleta é apenas dos fatos da região onde a realiza.

 

Não creio que se peça uma coleta sobre a estância e a vida pastoril gaúcha, em geral, porque tais levantamentos já estão feitos, capazes de servir de base para qualquer pesquisa. No resto do Brasil, porém, serão ainda muito necessárias. Assim, ficam as indicações essenciais.

 

Fora do Rio Grande do Sul, o cavalo é mais aristocrata, era a montaria de gente bem, antigamente dos senhores de engenho. O povo montava no burro, na besta, jumento e no boi, estes sim, animais modestos, folclóricos por excelência. O cavalo não era popular, era coisa de gente rica, quer para montaria, ricamente ajaezada, quer para tração, não puxava carroça, puxava carro de senhor. Só nas campanhas gaúchas, pela sua abundância, ele se tornou o companheiro de todos e, como já observaram, teve importante função socializante. O gaúcho não vive sem o seu cavalo, que lhe serve para tudo, é seu companheiro de todas as horas.

 

O burro e o jumento

 

O burro tem grande importância na vida e no folclore do Brasil. O burro é para o povo o animal paciente, filosófico, sagaz e assim aparece nas histórias e nas anedotas. De uma resistência formidável, teve papel importante na formação nacional, foi o grande elemento de transporte, ir em lombo de burro, era um dos meios normais de condução e o papel das tropas na vida brasileira tem sido muito estudado. É natural que, sendo assim, servindo para um mundo de coisas, o burro, a mula ou o jumento, jegue em certas regiões, se tenham incorporado largamente ao nosso folclore. Serve para transportes, montarias, tração. E como trabalha, não cansa nunca! Foi aproveitado nas cidades, para carroças e bondes e houve muito carro puxado por bestas.

 

Especial menção cabe ao jumento, que além de ser o mais resistente não só ao trabalho mas às calamidades, com papel considerável nas secas nordestinas, as quais se diz que só resistem padre e jumento, aquele por ser bem tratado, este pelas forças que Deus lhe deu. Aliás, o jumento é bíblico, estava na manjedoura de Belém, foi nele que Nossa Senhora fugiu para o Egito e, cavalgando-o, Jesus entrou em Jerusalém, domingo de ramos. Sempre útil, serviçal e modesto. É natural, pois, que viva intensamente no folclore. Mas não tem a notoriedade do boi ou do cavalo. Em folguedos só aparece nos ternos da burrinha, da mulinha, ou como personagem do bumba. Nos domínios do encantamento, só vemos a mula-sem-cabeça, relinchando, pondo fogo pelas narinas e se lamentando. Desencanta quando o padre pecador a amaldiçoa sete vezes antes de celebrar. Tem grandes contatos com o lobisomem e, como ele, basta que seja ferida ainda que levemente para perder o sortilégio. Denominada também de burrinha de padre.

 

As tropas de burros, também chamadas comboios, constituíram, por largo tempo, o meio mais comum de transporte de mercadorias. Tiveram grande importância social e incontáveis implicações folclóricas. Hoje, cedem lugar ao caminhão, mas ainda as há em declínio.

 

Como se organizam as tropas? Caso ainda existam na região da sua coleta. O número de animais? O da frente como se chama? Madrinha ou madrinheiro? É burro ou cavalo? Vai enfeitado ou apenas com chocalho? Os demais usam também chocalhos? existe o dianteiro, que figura depois daquele? Contam que quando o madrinheiro pára, para o tropeiro beber água, trazida no corote do último animal, dito culatreiro ou burro de coice, ele manda o dianteiro passar e, se passar, mostra condições de liderança, que o candidata a ser madrinha... Como as tropas são conduzidas? O dono acompanha ou manda alguém representá-lo? Como conduzem as tropas? Usam chicotes, linhas (chicotes de sola, ligados por um fio longo, a um cabo de pau), galhos de árvores ou qualquer utensílio dessa espécie? Como as mercadorias são transportadas nas cangalhas? Como se organizam as tropas que transportam pessoas em romarias? Converse com os tropeiros para que lhe contem as viagens, indagando dos horários, pousos para o pastar e beber, lugares de repouso e comida, dizendo de que espécie é essa e os nomes, pirão de comboeiro, arroz de carreteiro, feijão de tropeiro etc. e os causos que contem, e toda a parte mágica, histórias, lendas, superstições, tabus, tudo que se referir ao folclore espiritual dos tropeiros, das tropas e dos animais. Essa coleta deve ser muito minuciosa, pois, sendo costume que tende a desaparecer, adquire apreciável sentido histórico para o folclore.

 

Como explicam a esterilidade das mulas? Dizem que, coberta d'água, procriam?

 

O burro, como já vimos, avisa chuva. E é figura de numerosas anedotas, contos e fábulas, revelando sempre prudência, tenacidade e filosofia. Ele sabe, por exemplo, quando deve empacar, evitando atoleiros, precipícios e outros perigos. É muito conveniente alargar a coleta nesse sentido, pois os registros são muito deficientes.

 

Pássaros

 

O povo tem o que poderíamos chamar uma simbólica e uma poesia de pássaros, de borboletas, de inseto. Explicações muito curiosas de suas vidas e da maneira pela qual elas se projetam na existência humana. Por exemplo: cri-cri de grilo é sinal de que se vai ganhar dinheiro; beija-flor de rabo branco, ventura; andorinha, novidade; anu, desgraça; patuá de paquinha viva cura bronquite etc. Neste Manual sobram os exemplos.

 

O folclore ornitológico é muito variado e está na boca de toda gente. As superstições e simpatias são correntes e você deve anotá-las, bem como outras peculiaridades indicadas no correr deste Manual. Indique aves e pássaros mais conhecidos na região e o folclore de cada qual, prestando muita atenção às origens, porque o povo explica como aparecem muitos deles. O urutau ou jurutau, ou manda-lua ou mãe-da-lua, foi mulher que gostava muito de dançar. Uma noite deixou o marido doente e foi para um baile, na volta o encontrou morto. Na sua dor, virou passarinho e o canto, noturno, é um soluço, que para muitos é agoureiro. Já o compararam ao som do oboé. Dizem ainda que defende a virgindade das moças e varrer com suas penas o chão em baixo da rede dos recém-casados, lhes traz felicidade. São numerosas as lendas e também os sortilégios das aves e dos passarinhos, dão sorte ou azar, prenunciam o tempo, anunciam a morte etc.

 

Há um passarinho de grande importância, é o saci, cuja lenda originou o mito do saci-pererê. Ele é chamado: saci, matinta-pereira, mati-teperê, fem-fem, vem-vem, roceiro-planta, peixe-frito, peito-ferido, pássaro-feiticeiro, pássaro-pajé, crispim, tempo-quente, sede-sede, seco-fico e outros mais que não conheço. Note a variação dos nomes dos pássaros conforme a região, pelo que deve indicar sempre as denominações que têm em sua zona e a razão delas, que vêm muito do canto. Desde a quantidade de nomes tudo no saci é fabuloso. Dizem que abriga almas do outro mundo, outros afirmam que encarna alma de pajé, que é agoureiro, tem pacto com o diabo, tem duas cabeças. Ninguém sabe onde está, pois solta o seu canto, espécie de assovio, mas não há quem descubra se está perto ou longe. Como o chopim, para não ter trabalho de chocar os ovos, coloca-os em ninho alheio. Não é lugar aqui de tecer considerações sobre a transformação desse passarinho, na mentalidade popular, no mito do saci-pererê, moleque pretinho de um só pé, sendo de notar a coincidência do passarinho também gostar de pousar num dos pés.

 

No mundo dos pássaros, há incontáveis fatos folclóricos a registar, e deles apenas referi alguns. Muitos são famosos pelos seus cantos, o corrupião ou sofrê, imitando as melodias que ouve, conheci um que assoviava o hino nacional, o sabiá com seus gorjeios; outros pela sua beleza, como o galo de campina ou o beija-flor; alguns pela sua esperteza, como o citado chopim, tanto que em São Paulo se chama assim marido de professora que vive às custas da mulher; e os que são bons para comer, como as avoantes do Ceará, as perdizes e os macucos. E não esqueçamos o tangará, pássaro dançador, que organiza não direi bailados, mas bailes animados. Não se trata, porém, de uma coleta ornitológica, de sorte que as aves e pássaros que nos interessam são aqueles que o povo cerca com lendas, crendices e superstições. Por exemplo, o martim-pescador, com papel destacado no candomblé de caboclo, onde tem função de mensageiro entre os mortais e os encantados, mas sempre bêbado, pedindo cachaça, já que vive

 

Tomando cachaça

E caindo na rua...

 

Não atinei nunca com a razão da escolha desse pássaro para divinizar animais, talvez pela sua sagacidade em descobrir nas águas o peixe, descer em vôo rápido, mergulhar e apanhá-lo.

 

Já referi o papagaio, que é o animal de mais rico anedotário no Brasil e personagem de muitas histórias tão conhecidas, que não é preciso relembrar nenhuma. Apenas insisto em que se as colha, a fim de que possamos ter elementos para estudar o ciclo do papagaio no folclore brasileiro. Também é lembrado em cantorias, das quais a mais conhecida talvez seja a do

 

Papagaio louro

Do bico dourado

Leva esta carta

Ó meu louro!

Ao meu namorado

Ele não é frade

Nem homem casado

É rapaz solteiro

Ó meu louro!

Lindo como um cravo

 

Como apanham passarinhos? Que processos usam: visgo, alçapão ou outras armadilhas? Os meninos são grandes apanhadores de passarinhos, mas em geral são os adultos que cuidam deles. Nas feiras vendem passarinhos? Vivos ou mortos para alimentação? A predileção em criar passarinhos é para os mais bonitos ou os melhores cantadores? Como os alimentam? Gaiolas e armadilhas estão no capítulo de artes e artesanatos.

 

Insetos

 

Os insetos, alguns de rara beleza, como louva-deus, sobre o qual o povo conta tanta coisa, borboleta, besouro, que ronca no peito, pirilampo, conhecido com tantos nomes, a cigarra cantadeira, famosa no folclore universal pela sua fábula com a formiga, a esperança verde, sinal de felicidade, o grilo, cujo canto anuncia dinheiro, outros perigosos e nocivos como pulga, traça, percevejo, piolho, cupim, lacraia, mariposa, quando preta traz azar, formiga, barata, mosquito, o temível marimbondo, que criou o dito "mexer em casa de marimbondo", ou seja provocar perigos, e, por ser grande caçador (marimbondo caçador), a simpatia consiste em torrá-lo e depois fazer um pó, que os cachorros cheirando, ficam de faro mais agudo. E, por fim, a operosa abelha, talvez o mais útil ao homem e que, pela sua organização, impressiona fortemente a mentalidade popular. Os índios tenetehara fazem a festa do mel, cujas canções "são tidas como o ponto alto de sua música".

 

Convém observar com grande atenção o folclore dos insetos, de tanta importância na vida do povo. E há ainda crendices interessantes, por exemplo, da jaquitirana-bóia, também chamada cobra-do-ar ou de asa, corre a lenda de ser tão venenosa que mata homens e bichos e seca árvore... No entanto, afirmam os naturalistas que é inofensiva, não possuindo arma para ferir... Do marimbondo, dizem que se enxota com roupa suada. Da tocandira, formiga amazônica, cuja ferroada causa dores horríveis, tanto que era utilizada nas festas de iniciação dos meninos de várias tribos indígenas, a fim de preparar futuros guerreiros. E só passando por prova tão cruel se podem casar. Dizem também que a tocandira, depois que morre, vira cipó-imbé, usado nas construções, como prego. As formigas são em geral caluniadas, quando, na realidade só a saúva é inimiga das plantações. Içá ou tanajura, a saúva-fêmea, se come frita, com farinha ou se faz paçoca. O gafanhoto, de que a esperança é uma das espécies, quando voa em nuvens, de milhões, constitui tremenda praga para a agricultura, foi mesmo uma das pragas bíblicas. Se, a região de sua coleta for assolada por tais bandos, veja como o povo, o roceiro sobretudo, as vê, as explica, as combate e as amaldiçoa.

 

Toda essa coleta é fácil, só puxar assunto.

 

Batráquios

 

Na espécie o sapo é o rei. E no folclore, o compadre sapo das histórias é figura esperta, malandra e que tem sempre a sua violinha para tocar. A história de que gritava aos que o queriam matar — me jogue no fogo, me jogue no fogo, para ser contrariado e jogado na água, para onde queria ir mesmo, mostra sua sagacidade.

 

Em todos os folclore, o sapo tem lugar de destaque, e, com a rã, guarda as águas, por isso alguns povos não os matam.

 

Como a sabedoria popular não perdoa os intrujões, contam que houve uma festa no céu  e o sapo, às escondidas, meteu-se na viola do urubu e chegando lá em cima divertiu-se a valer. O  urubu verificou que fora enganado e jurou vingança. Na hora de descer, novamente o sapo entrou na viola, o urubu a tomou e começou a viagem de retorno. Nos ares, verberou ao sapo a sua conduta, como é que ia para o céu se Deus não lhe havia dado asas. E o jogou no espaço. O pobre do sapo veio caindo e deu de costas numa pedra, daí ter ficado manchado e cheio de protuberâncias.

 

Não só em histórias, mas também no cancioneiro, encontramos muito verso e uma das cantigas de ninar mais conhecidas no Brasil é a do sapo cururu:

 

Sapo cururu

Da beira do rio

Quando o sapo canta, ó maninha

Diz que está com frio

 

Dizem que, quando atacado, o sapo mija no agressor ou lhe atira leite, e, se cair nos olhos, cega, o que na realidade não acontece, pois, ainda que possua veneno, não o pode expelir à distância. Falam que o sapo tem na cabeça uma pedra a que os alquimistas emprestaram grandes valores, pedra "delgadita, lisa, branca ou de outra cor", usada também como amuleto e medicamento. À pele de sapo são atribuídas também virtudes terapêuticas.

 

Veja também o que se diz das jias, pererecas e rãs que chamam chuva com seu coaxar. Não lhe estou indicando senão algumas referências no gênero, onde a coleta possa ser muito desenvolvida. O sapo sempre tem papel destacado na medicina popular e na feitiçaria. É tabu não matá-lo, pode provocar seca. Em suma, o sapo é grande tema do folclore universal.

 

A caça

 

Sobre a caça há duas coisas a considerar. O homem do interior que caça por necessidade, para suprir sua alimentação, e os que caçam como profissão ou por prazer. Além do interesse em saber das caças existentes e das preferidas — em geral aves e animais pequenos, pode também acontecer de animais de grande porte, como a capivara, o veado e a onça, por exemplo — das armadilhas, das armas empregadas e tudo o mais.

 

Naturalmente uma referência especial deve ser feita aos cachorros, dizem que caçam à vezes por conta própria. o cachorro, contudo, tem de ser visto com amplitude, nessa função e nas demais, inclusive na de guarda e companheiro do homem. Cite os nomes que lhes dão, mas note que ninguém chama de cão, que é o diabo, nem de cadela, que é insulto e xingamento, mas só de cachorro e cachorra. Em geral são Rompe-Ferro, Sultão, Tigre, Piloto, Corisco, Gringo, Fogo etc. Em torno do cachorro, muita crendice existe, por exemplo, que quando uiva, se a gente virar o sapato, ele cessa imediatamente; evita-se a loucura, matando os primeiros filhotes; vestir roupa no avesso livra de cão danado; não se deve cuspir em cachorro porque depois da nossa morte, na longa travessia que se fará até chegar à casa de São Miguel, onde serão julgadas nossas almas, sentimos uma grande sede e neste longo percurso só encontramos a casa de São Lázaro; aí, se não cuspimos nos cães, somos servidos com água boa e fria, ao contrário, somos acossados por dentadas implacáveis.

 

Fabulário

 

As fábulas, cujos protagonistas são bichos, e as histórias de animais, onde há gente como comparsa, algumas em forma de lendas, são numerosas em todos os folclores, pela tendência primitiva de associar os animais à vida humana, atribuindo-lhes qualidades adequadas aos seus intentos ou por mera improvisação. A paremiologia, os versos, os romances, as cantigas, as parlendas e todas as formas da literatura oral referente aos bichos, deve ser recolhida com muita atenção.

 

O nosso fabulário, vindo de várias origens, recebeu naturalmente uma enorme contribuição dos índios, pela sua contingência de vida na natureza, pela sua alimentação ser provida pela caça e ademais pelo animismo dominante nas culturas primitivas, onde são atribuídos aos animais fatos de maior significação na vida coletiva. Assim, foi o veado quem ensinou aos homens tirar o veneno da mandioca, e o tamanduá, que também é adivinho, as cantigas e as danças. Os estudos das tribos indígenas revelam quantas fontes folclóricas, vindas da sua mentalidade, desaguam nas vertentes populares.

 

No fabulário indígena são tratados com a mesma sagacidade com que o fizeram os povos onde se inspiraram Esopo, Fedro ou La Fontaine, que nele teriam encontrado proveitosos temas para as suas obras imortais.

 

É sabida a intenção educativa das fábulas, desprezando a força pela inteligência ou pela sagacidade, zombando dos pretensiosos, estimulando a virtude e o trabalho. Muitas fábulas e histórias de bichos são etiológicas, porque encerram o destino do animal, como, por exemplo, se sabe que a formiga é ativa e vive furtando, por aquele conto cumulativo em que ela chega até Deus e conta de um por um: ó Deus, tu és tão valente, que acabas o homem, que mata a onça, que devora o cachorro, que bate no gato, que come o rato, que fura a parede, que para o vento, que desmancha a nuvem, que esconde o sol, que derrete a neve, que meu pé prende. Deus respondeu: Formiga, vai furtar... Por isso ela vive assim.

 

A literatura oral sobre animais é feição muito característica da cultura popular, por isso deve merecer sua atenção na infinidade de formas que se lhe depararem, em qualquer coleta em quem a tenha de fazer e onde eles apareçam. A fábula e o conto de animais são grandes precipitados da sabedoria humana.

 

 

 

(Em Almeida, Renato. Manual de coleta folclórica. Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1965, p.125-141)

 

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